A jornalista Suzana Varjão, uma das fundadoras do Movimento Estado de Paz
A cada 15 minutos, um brasileiro é assassinado. As armas de fogo matam 95 pessoas todos os dias, o que equivale a uma média de 34 mil mortes por ano. Para tentar mobilizar a sociedade sobre a importância do desarmamento, representantes da Caravana Desarma Brasil, um movimento que congrega 49 ONGs, participaram em Maceió de uma série de encontros com legisladores e representantes de organismos de direitos humanos. Nessa entrevista ao site do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ/AL), a jornalista baiana Suzana Varjão, autora do livro: “Micropoderes Macroviolências, mídia impressa e aparato policial”, falou sobre os desafios da caravana e seu trabalho de pesquisa no estudo da violência urbana, que resultou em tese de mestrado e livro.
Durante a passagem da caravana por Alagoas vocês participaram de reuniões com o Governo e tiveram uma audiência pública, na Assembléia Legislativa. O que esperam conseguir a partir desses contatos?
Suzana: Nossa mobilização junto aos legisladores foi no sentido de reforçar a importância do Estatuto do Desarmamento. Hoje existem inúmeros projetos de Lei pedindo alterações no Estatuto e não podemos deixar que ele seja modificado. Daí nosso apelo, para tentar convencer os políticos alagoanos de que o desarmamento é eficaz e mudanças teriam consequências desastrosas. Alagoas foi um dos estados onde não registramos grandes avanços em relação ao desarmamento, por isso estamos nos mobilizando, para que essa realidade mude.
Um dos focos da Rede Desarma Brasil é difundir a cultura da paz. Maceió vive hoje um momento de explosão da violência urbana, com super-exposição de casos nos jornais e sites de notícia. Como incluir a Paz na pauta dos jornalistas?
Suzana: É preciso descondicionar o olhar sobre o mundo, desconstruir do imaginário essa cultura bélica, essa violência simbólica, que ainda está muito presente nas raízes da sociedade brasileira. Exatamente por isso é que precisamos falar de paz e ao invés de recuar, temos que avançar sobre o problema. Precisamos compreender que as palavras tem força e podem transformar a realidade e o mundo em que vivemos.
O Governo de Alagoas encaminhou um Projeto de Lei que prevê a criação de uma Secretaria Especial de Promoção da Paz. O que pensa a respeito?
Suzana: Uma iniciativa como essa é extremamente importante, pois mostra que o paradigma de segurança pública mudou. Não temos uma tradição em investir na prevenção da violência, por isso é necessário uma estrutura que articule e organize as questões em torno dessa outra vertente do sistema de Justiça Criminal, que é a prevenção, para que possamos chegar próximo as causas e não as consequencias dessa violência.
Em novembro de 2001, junto com outros colegas jornalistas, você fundou o Movimento Estado de Paz. Fale sobre essa trajetória e o que te motivou a mergulhar nessa investigação sobre a violência urbana?
Suzana: Em novembro de 2000, Maristela Bouzas, amiga colunista do jornal A Tarde, foi sequestrada no Pelourinho, centro de Salvador, foi violentada sexualmente e assassinada. Em busca por informações sobre o paradeiro dela, nós, seus amigos jornalistas da área de cultura, começamos a perceber e a nos inquietar com o modo como as notícias eram construídas. Naquela época acreditávamos que o perfil das vítimas desse tipo de violência fosse o mesmo de nossa amiga, mas logo percebemos que as maiores vítimas eram os jovens, negros, do sexo masculino, com baixa escolaridade e moradores de bairros periféricos da cidade.
Quando surgiu a idéia de transformar toda essa produção em material para a tese e o livro?
Suzana: Iniciamos uma pesquisa para reunir dados sobre essa inversão do papel das principais vítimas de homicídios. Nos juntamos a Rede de Proteção ao Cidadão, para dar visibilidade as causas que eles defendiam e não tinham espaço na mídia. Naquela época percebíamos graves problemas na cobertura jornalística, queríamos mudar essa realidade. Iniciamos a pesquisa em conjunto com vários especialistas da área de Comunicação Social. O Movimento Estado de Paz foi fundado só por comunicadores e desde então temos trabalhado na tentativa de modificar essa cultura da violência, por uma cobertura mais comprometida com a promoção da paz.
Na sua avaliação, mudou muito o modo como a imprensa realiza a cobertura dos casos de violência?
Suzana: Antes do Movimento, o tratamento editorial era sempre mais criterioso quando se tratava de vítimas de classe média e brancas. Hoje já percebemos uma mudança substanciosa, pelo menos em Salvador, estamos conseguindo que essa cobertura ocorra com um tratamento diferente em relação às vítimas, e isso incluí negros e pobres.
Um pouco mais sobre a autora: Suzana Varjão é mestre em Cultura e Sociedade pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Escritora e jornalista, recebeu 27 prêmios de reportagem, entre locais, nacionais e internacionais, a maioria deles pela defesa dos direitos humanos.













